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Moda inclusiva: roupas adaptadas facilitam o dia a dia da pessoa com deficiência


Por: Primella Leite
De acordo com uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada em 2012, cerca de 24% da população brasileira possui algum tipo de deficiência, seja ela mental, motora, visual ou física. Diante desse número, o mercado da moda inclusiva, que possibilita um nicho de roupas adaptadas para essas pessoas, ainda está sendo descoberto no país, mas se faz totalmente necessária. Além da facilidade que as roupas customizadas levam às pessoas com deficiências e mobilidades reduzidas, a vaidade natural do sexo feminino e a autoestima da mulher são colocadas como prioridade.
Um exemplo da preocupação da moda inclusiva com a deficiente e suas respectivas necessidades, é o número de eventos apresentando esse mercado novo para o público e destacando o respeito pela dificuldade e restrição de cada uma.
Em Hortolândia, essa questão foi apresentada ontem, no Shopping Hortolândia, através do ‘II Desfile de Moda Inclusiva’. A primeira edição do evento aconteceu no ano passado. O desfile, que foi organizado pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Chefia de Gabinete, faz parte de uma ação da Virada Inclusiva, que teve como objetivo despertar em lojistas e confecções um olhar diferenciado para estas consumidoras, que também desejam estar na moda, vestindo peças bonitas e confortáveis.
Para o desfile, a Prefeitura contou com parceria de diversas lojas, que cederam peças de roupas para serem adaptadas aos uso dos modelos: onze pessoas com deficiência, além de voluntários. As roupas foram adaptadas pelos alunos do curso de Moda da Unip (Universidade Paulista) de Campinas, sob a orientação do estilista hortolandense José Vanderley Carmargo, que leciona a disciplina de Modelagem para a turma.
“A iniciativa da Prefeitura de Hortolândia em organizar, pela segunda vez, o desfile de moda inclusiva é totalmente viável, necessário e novo na cidade. Eu moro aqui há 30 anos e antes não era assim. É interessante porque incentiva o público a conhecer mais esse trabalho e o mais importante: a olhar o outro. O ser humano aprende que a beleza é muito relativa, que todos temos nossas diferenças e isso, de certa forma, enriquece o ser”, comentou o estilista.
O especialista explica que, o mercado da moda, hoje em dia, “está no sentido contrário das pessoas que possuem algum tipo de deficiência”, mas é de suma importância lembrar às pessoas que a mulher deficiente também é uma consumidora e deve ter à sua disposição roupas que a façam se sentir bem e bonita. “Antes, os ‘diferentes’ do padrão estético, como os obesos, por exemplo, tinham que se contentar com qualquer roupa. Mas não deve ser assim. Todos tem direito de comprar uma roupa que vista bem e que ache, de fato, bonita”, disse.
O que caracteriza a moda inclusiva, segundo Camargo, é a funcionalidade e facilidade que a roupa deve permitir à pessoa com deficiência. “A moda inclusiva tem o objetivo de facilitar e adaptar as peças à necessidade de cada pessoa, considerando a dificuldade de cada uma”, explicou. “A mulher que possui deficiência visual, por exemplo, precisa de roupas que ela possa identificar onde é a frente da peça, onde são as costas. Ela precisa tocar e imediatamente imaginar como vestir aquilo. Já para as mulheres que possuem alguma deficiência física, como as cadeirantes, a questão principal é a adaptação na hora de vestir a peça, que é a maior dificuldade delas. Nesses casos, o ideal é uma calça ou saia, por exemplo, com zíperes laterais, que facilitam não só para colocar a roupa, mas também para ir ao banheiro e permitir uma melhor mobilidade para elas. Uma saia toda de zíper também é opção. É preciso, antes de mais nada, analisar a dificuldade de cada uma. Normalmente se coloca zíperes ou velcro, por exemplo, onde vai facilitar mais para vestir e tirar a roupa.  As mulheres que usam próteses podem optar por customizar a própria prótese e permitir que ela faça parte do look. Há algumas customizações, inclusive, onde se colocam malhas que imitam tatuagens…  A intenção é aparecer mesmo”, completou o profissional.
Isabel Moura, de 48 anos, é cadeirante há um ano. Ela teve uma paralisia geral decorrente de um problema de saúde, que ainda não foi identificado pelos médicos. Desde então, Isabel não tem o movimento dos braços ou pernas. Mas ontem, participou do II Desfile de Moda Inclusiva e foi modelo pela primeira vez, apresentando as roupas adaptadas, provando que a moda é para qualquer um e que a vaidade não tem relação nenhuma com o padrão de beleza.
“O desfile é importante porque mostra as dificuldades da pessoa com deficiência, que às vezes não são lembradas. Eu também sou compradora, não é por conta do meu problema de saúde que perdi minha vaidade. Eu consumo, eu gosto de roupas novas, eu gosto de me maquiar… O deficiente precisa ter uma vida normal”, destacou.
Isabel diz que tem dificuldade na hora de comprar roupas porque não possui o movimento dos braços, então sempre precisa de ajuda para provar as peças. “Eu percebo que alguns vendedores ficam com receio nessas horas, e muitas vezes, não sabem como agir e como vender para um deficiente. Eles não sabem dizer se ficou bom ou não a roupa. Então eu compro alguma roupa e acabo levando para a costureira adaptar ao meu jeito. Na maior parte das vezes, ela coloca zíperes, que facilitam na hora de colocar ou tirar a calça ou a saia, por exemplo”, contou.
Para o estilista, a moda inclusiva tem como prioridade maior levar a independência que o deficiente precisa. “As pessoas com alguma deficiência já são dependentes para quase tudo. Então a moda inclusiva tem o objetivo de levar algum tipo de independência à elas. É preciso mostrar que essas pessoas também têm seu lugar no mundo e estão inclusas nele. Algumas delas nem saem de casa porque não possuem mais autoestima e a moda inclusiva devolve isso”, finalizou.

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