“COM QUE ROUA EU VOU?”. DESAFIOS DA MODA PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA


Modelo: Adriana Buzelin. Acessórios: Bigiteria. Foto Alessandra Duarte
Modelo: Adriana Buzelin. Acessórios: Bigiteria. Foto Alessandra Duarte
Essa pergunta é mais frequente do que se imagina quando pessoas com algum tipo de deficiência vão sair de casa, seja para um encontro casual ou uma ocasião especial.
Não é nada fácil achar uma que combine com o tipo físico e a ocasião. O que para muitos pode ser uma tarefa fácil, para outros podem ser obstáculos, por conta das limitações do movimento de vestir e despir.
Escolher o look certo, além de mexer com a autoestima, também é uma forma de independência. A moda deveria ser para todos, e é baseado nesse conceito que cada pessoa deveria ter acesso a seu estilo, escolhendo peças de vestuário com mais facilidade. Por isso, o surgimento da moda inclusiva.
Mas a moda inclusiva tem muitas nuances. Ao mesmo tempo em que inclusão é conseguir encontrar, ainda que no mercado tradicional, roupas que se adaptem ao seu corpo, te fazendo sentir-se bela e ao mesmo tempo confortável, é também ter oportunidade de escolher suas peças em empresas voltadas para moda adaptada. Porém, poucas empresas investem neste nicho de mercado, por não perceberem os cerca de 24% da população que vivem com algum tipo de deficiência (algo em torno de 46 milhões de consumidores).
Tais números indicam que esse pode ser um caminho de ótimos negócios. Além de lucrar, os empresários de roupas adaptadas podem melhorar e muito a qualidade de vida das pessoas com deficiência. Alternativas como trocar o botão por velcro, botões com ímã, escolha de tecido mais leve, costura para o lado externo, aberturas laterais e etiquetas em braile são formas de tornar uma roupa acessível para consumidores com algum tipo de deficiência.
As produções de peças são em pequenas quantidades, a maioria em lojas virtuais, o que ajuda o consumo, já que as lojas físicas, em sua grande maioria, ainda não possuem provadores adaptados. É preciso pesquisar caminhos econômicos, para não deixar o produto final com preço elevado, em comparação as roupas não adaptadas.
E adaptar roupa não é novidade para nós. Roupas para bebês são uma forma de adaptação, afinal, elas facilitam muito para o cuidador e para os pais nesse processo de vestir.
O que deveria ser corriqueiro e fácil se torna complexo, pois além das roupas, os sapatos também estão carentes em adaptações. O que deveria ser uma tendência na moda está esquecido pelas empresas, que não investem em um nicho de mercado grande e promissor.
Eu escolho o look com que vou
Caroline Marques
“Não atendo a campainha da minha casa sem estar arrumada. O que vestimos é um pouco da nossa personalidade, afinal, o visual é o que vem primeiro, depois as nossas atitudes complementam. Porém, não faça nenhum julgamento pela aparência, sem antes conhecer o conteúdo. Gosto de cuidar do meu visual em cada detalhe. Sempre estou bem comigo mesma, e a forma como estou vestida transmite isso”, afirma Caroline.
No guarda-roupas, de tudo um pouco, mas nada adaptado. Ela sempre vai às lojas para escolher os looks. Gosta de ver as vitrines e está sempre de olho nas tendências da moda. Vê como problema a ausência de provadores adaptados. Em alguns casos, já chegou a comprar uma roupa de que gostou muito na base do “olhômetro”. Provou na residência, mas teve que voltar para trocar, por não ter ficado bem no corpo. Isso acaba sendo uma loteria, pois se não tiver outra numeração de acordo com o tipo físico, ela acaba dando o look de presente para alguém da família ou amigas. Por encontrar tantas dificuldades, Caroline acabou comprando uma máquina de costura, e muitos dos seus looks fashions são feitos por ela mesma.
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Caroline Marques: mãe, modelo e primeira vencedora do Miss Brasil Cadeirante. Com 9 anos de idade, sofreu um acidente de carro, ficando paraplégica. Reside em São Bernardo do Campo/SP. Sessão realizada na Expo Manequins, para mostrar os primeiros manequins adaptados pela marca Lado B Moda Inclusiva. Make-up: André Lima. Foto: Kica de Castro
Paula Ferrari
“Na hora de compor um look, sou básica. Gosto de cores neutras, mas não abro mão do conforto que a roupa vai trazer, de estar bonita, e passei a usar mais saltos altos”.
Abrindo o guarda-roupas, peças adaptadas de marca, para ocasiões sociais. As demais, do dia a dia, de marcas variadas e sem adaptações. Os looks são escolhidos: o que fica melhor na posição sentada, que não machuque, não marque muito o quadril e não fique pegando nas rodas da cadeira, principalmente na hora que está em movimento.
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Paula Ferrari: fisioterapeuta, dançarina, atriz e modelo. Em 2012, teve mielite, uma infecção medular. É usuária de cadeira de rodas para longas distâncias. Reside em São Paulo/SP. Sessão realizada no estúdio Kica de Castro Fotografias, para editorial da marca Fator Brasil. Make-up: André Lima. Foto: Kica de Castro
Adriana Buzelin
“A moda inclusiva para mim só foi percebida quando comecei a usar uma cadeira de rodas e comecei a ter dificuldade com a acessibilidade das roupas. Sinto que é muito difícil escolher uma roupa que seja bela e ao mesmo tempo confortável”
Acredito que as roupas adaptadas começam a ser vislumbradas por algumas empresas, mas ainda precisam ter um design mais arrojado. Que não sejam apenas práticas, mas fashion. Para ela, sentir-se bela, na moda e com estilo é muito mais necessário do que ter roupas apenas confortáveis. Em seu armário, não se encontram roupas adaptadas, mas peças feitas por grifes em pequena escala. São roupas com muitas rendas, elásticos, tecidos fluidos e fáceis de vestir.
Não tenho dificuldades somente com as roupas, mas também com os calçados e os acessórios como bolsas, que muitas vezes a escondem na cadeira de rodas devido ao tamanho, ou mesmo por caírem do colo. Percebo que muita coisa precisa ser estudada para que pessoas com deficiência tenham um amplo universo de vestuário para poder escolher. Para mim, sentir-se bela e na moda é estar incluído na sociedade.
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Adriana Buzelin: colunista de revistas relacionadas a inclusão, editora-chefe da Revista Digital Tendência Inclusiva, designer e modelo. Sofreu um acidente automobilístico que a deixou tetraplégica, interrompendo sua carreira como modelo fotográfica. Reside em Belo Horizonte/MG. Adriana veste Lu Henriques, acessórios Bigiteria – Gisele Bijoux. Make-up: André Lima. Foto: Kica de Castro. Sessão fotográfica realizada no estúdio Cachaça Brava

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